Diário da fábrica

Capítulo 03 ·

Dormi e acordei com o trabalho pronto

A primeira noite inteira: um roadmap em etapas, nenhum prompt meu e 10 tarefas entregues, testadas e integradas de manhã.

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No capítulo anterior, a IA saiu do meu volante durante o dia. Eu passei a definir, acompanhar e aprovar, e a ferramenta fazia o resto. À noite, a fábrica ainda dependia de mim: quando eu ia dormir, ela parava.

Este capítulo é sobre a primeira noite em que isso não aconteceu.

O ensaio

A primeira tentativa foi na véspera. Passava da meia-noite quando coloquei para rodar a primeira execução com duas tarefas agrupadas e fui dormir.

A execução terminou bem, à 01h42. Depois disso, a máquina parou, porque não tinha mais nada na fila. Acordei com duas tarefas prontas e o computador parado havia mais de seis horas.

Para a máquina trabalhar a noite inteira, alguém precisava deixar a noite organizada antes: o que roda, em que ordem, o que pode rodar junto e o que não pode. De dia, quem fazia isso era eu, entre uma sessão e outra. À noite, não tinha ninguém.

O roadmap da primeira noite

Esse alguém chegou no dia seguinte: o Product Owner de IA do capítulo 2, ainda em uma versão bem mais simples. E quem entregou o PO foi a própria ferramenta. A execução que construiu o PO terminou às 21h21. Quatro minutos depois, começou a primeira etapa do primeiro roadmap que ele montou.

Eram sete etapas. Nas da madrugada, o PO montou pares de tarefas que não mexiam nos mesmos arquivos, para rodar ao mesmo tempo, em duas frentes. As duas últimas etapas eram diferentes: cada uma juntava duas tarefas de tela em uma execução só, porque elas mexiam nos mesmos lugares.

Todas as tarefas estavam no modo Automático, inclusive as de tela: do código até a integração, sem parar para eu olhar.

A noite quase não começou. Às 22h23, uma segunda cópia do aplicativo, aberta sem querer, bagunçou o roadmap, e ele parou. A IA consertou o arquivo, e às 22h47 o roadmap voltou a rodar. Contei esse susto no capítulo 1, e ele tem um capítulo próprio: Um sistema que a IA lê, a IA conserta (capítulo 8).

Hora a hora

Às 23h30 começou a terceira etapa. Pouco depois, mandei a última mensagem da noite para o Claude:

"Cancela o monitor, vou dormir e deixar o PC rodando."

O monitor era o Claude acompanhando as execuções por mim. Cancelei para não gastar uma IA olhando outra IA trabalhar enquanto eu dormia. Essa ideia volta no capítulo 5, O token mais caro é o de uma IA esperando.

Depois disso, não mandei mais nenhuma mensagem até as sete da manhã. O que aconteceu nesse intervalo eu só vi de manhã, nos registros.

A primeira noite, das 23h às 9h: duas frentes de execuções, etapa por etapa, das 23h30 às 04h02; a segunda frente esperando a primeira terminar em cada etapa; a máquina parada por 4h45, até eu abrir a próxima etapa às 08h47; e nenhuma mensagem minha entre a meia-noite e as sete

Os registros mostraram um detalhe que eu não tinha previsto: cada etapa só começava quando a anterior terminava inteira. Às 00h25, uma das frentes ficou livre e esperou 24 minutos pela outra. A noite andava no ritmo da execução mais lenta de cada etapa.

O que a fábrica construiu enquanto eu dormia

Olhando a lista de manhã, uma coisa me chamou a atenção: tudo o que a fábrica construiu naquela noite foi para ela mesma. E boa parte era justamente o que faltava para ela trabalhar sem mim:

A ferramenta passou a noite construindo as ferramentas que iam me deixar dormir. O Run App, que eu uso hoje para aprovar uma tela, foi feito sem mim, às três da manhã.

De manhã

O resultado da noite:

O que eu senti naquela manhã ficou registrado em uma conversa com a IA:

"Pensando na filosofia ágil, para mim pareceu muito melhor eu ir dormir e acordar com propostas já mergeadas, onde eu posso fazer um refinamento em cima do que já foi feito."

Em vez de imaginar uma tela antes de ela existir, eu tinha a tela pronta para julgar. Essa ideia tem um capítulo próprio: Refinar antes ou reagir depois? (capítulo 7).

A manhã também mostrou um risco. A última etapa usou as regras e os componentes de tela criados na etapa anterior. Se eu não gostasse do trabalho das 02h33, a correção não ficaria só nele, porque já tinha trabalho apoiado em cima. Em uma noite sem ninguém olhando, o custo de errar em uma tela cresce a cada etapa. A regra que ficou: à noite, tela pode ir no Automático, mas sem empilhar na mesma noite telas que dependem uma da outra.

E a revisão da manhã precisa caber em uma hora. Dez entregas só cabem nesse tempo se cada uma chegar com evidência: capturas, registros e o app rodando com um clique. Sem isso, eu passaria a manhã lendo código.

Às 08h47, abri a etapa seguinte. A primeira tarefa do dia era a correção definitiva do susto das 22h23: uma única cópia do aplicativo por pasta de trabalho.

Os números daquelas 24 horas também tinham um lado menos bonito. Eu mandei 76 mensagens, espalhadas por 12 horas diferentes, e 23 delas foram às dez da noite, consertando o roadmap. De madrugada, a fábrica trabalhou sem mim. De dia, eu ainda estava longe das duas horas.

As 4h45 paradas

Somando as 24 horas, de oito da manhã a oito da manhã, a fábrica teve alguma execução rodando por quase 15 horas. No dia anterior, foram pouco mais de 7.

O número que mais me incomodou foi outro. Das 04h02 às 08h47, a máquina ficou 4 horas e 45 minutos parada. Ela não falhou, não travou e não esperou aprovação. Só não tinha mais trabalho planejado.

Foi aí que escrevi uma frase que virou princípio do projeto:

"Desenvolvedor bom não fica parado. Quando acaba o backlog que ele tinha, ele vai buscar mais ou pergunta ao PO, e o PO vai empurrando trabalho."

Essa lacuna virou três tarefas:

O roadmap vivo ainda não estava pronto na noite seguinte. Então, com a ajuda da IA, emendei à mão três etapas pequenas no fim do roadmap, só para a máquina não parar. Ela não parou: foram cerca de 25 tarefas até as sete da manhã.

A métrica também mudou. Para uma fábrica 24x7, a pergunta mais importante talvez não seja quantas tarefas ela entrega por noite, e sim quantas horas de trabalho bem definido estão prontas quando eu vou dormir. Um dia, quero abrir o backlog e ler: "tem cinco noites de trabalho prontas".

A aprovação mudou de hora

Nenhuma execução parou para pedir a minha aprovação naquela noite. Isso não contraria a regra do projeto. A aprovação não sumiu: ela mudou de hora. O roadmap que eu aceitei antes de dormir já dizia o que podia entrar sem mim, em que ordem e em qual modo.

Quando uma tarefa precisa de mim, a noite espera. Na madrugada seguinte, uma tarefa chegou a um ponto em que o fluxo exige a minha aprovação e ficou mais de duas horas parada, esperando eu acordar.

A regra continua a mesma dos capítulos anteriores: a automação nunca atravessa uma aprovação humana.

O próximo passo

Quando somei o tempo das etapas daquela noite, uma conta não fechava. Testar levou mais do que desenvolver: cerca de 3h15 contra 2h10. E 1h20 desse teste foi um agente esperando um comando terminar.

No próximo capítulo, O gargalo não é o código, é o teste (capítulo 4), conto por que escrever código deixou de ser a parte cara do trabalho e o que eu mudei para as noites seguintes não gastarem o relógio esperando.

Próximo capítuloO gargalo não é o código, é o testeSomando o tempo das etapas, testar levou mais do que desenvolver. A próxima grande economia está no teste. ← Todos os capítulos

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